Vivi minha primeira infância em
uma casa extremamente urbana. Em uma avenida movimentada, com direito a caminhões,
ônibus e até mesmo o famoso “homem do saco”, aquele que roubava criancinhas.
Pobre homem, com certeza, carregava naquele saco, todos os seus míseros
pertences e sobrevivia da caridade alheia.
Mas, não quero falar dessa figura
e sim, de uma lembrança boa demais. Embora morasse em um lugar urbano e
movimentado, um vizinho possuía um macaco, o Chico. Era amante de banana. E nos
divertia com suas peraltices.
Meu pai, o nosso Tarzan, que
aprendeu a nadar nas águas do velho Chico, o meu herói sem capa, descascava
nossas laranjas e pedíamos que não estragasse a casca, a deixasse inteira. E
para quê?
Para colocarmos em nossa roupa e
fingirmos que éramos macacos. Se faltava o rabo, este o tínhamos, ainda que de
casca de laranja. E saíamos pela casa fazendo micagens, coçando a cabeça e a
barriga ao mesmo tempo e emitindo os mesmo sons que o Chico emitia.
Essa lembrança é tão forte em
minha memória que, quando vou descascar laranja, tomo o maior cuidado para não estragar
a casca. Inconscientemente, me vejo no compromisso de mantê-la inteira.
Claro que não vou usar, em
seguida jogo fora, mas meu pai vem à minha lembrança, com aquela paciência que
ele tinha em nos ensinar um pouco de sua feliz infância, no interior da Bahia. Ele,
seu irmão e suas oito irmãs.
E eu ficava imaginando uma casa cheia
de crianças, correndo de lá para cá e deixando meus avós maluquinhos. Eu me
deleitava com essa ideia. Pena não ter conhecido meus avós e algumas tias e meu
tio. Mas, eles estão eternizados nos encontros da primaiada, nas lembranças que
cada um traz consigo.
Hoje, ao descascar minha laranja,
veio de novo essa lembrança, de novo viajei no tempo e decidi eternizar,
fotografando e casca e registrando em palavras.
Nizamar Oliveira – 01/11/2019
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