Liesel é uma adolescente cujos
olhos, aos 12 anos, já presenciaram grandes dores. Viu seu irmãozinho morrer
nos braços de sua mãe. Viu a tristeza nos olhos de sua mãe, ao enterrar o filho
e ao entregá-la para adoção. Passou privações que não podemos mensurar. Mas,
essa menina é feita de uma matéria muito forte. Não se entrega e, durante todo
o livro, dribla a morte. E é ela, a morte, quem vai contar sua história.
Devorei este livro, assim que
lançado por aqui. Fiquei fascinada, viajei no cenário, imaginei os personagens,
a sopa que Rosa preparava, o Hans, com olhos de prata, tocando seu acordeão e
os cabelos cor de limão de Rudy, o menino que ela amava e odiava. Liesel, para mim,
era uma menina um tanto quanto teimosa e devoradora de livros. Tinha uma sede
inacreditável do saber. Reli este livro antes de assistir, queria lembrar dos
detalhes, afinal, tantos livros li depois, que as minúcias já escapavam de
minha memória.
Em minhas duas leituras, não pude
perceber o que o coração desta menina falava com seus olhos observadores. Enquanto
assistia o filme, eu pensava se eu não teria captado essa mensagem, nas páginas
lidas ou se, o olhar de Brian Percival distinguia-se do de Markus Zusak.
A atriz que representa Liesel,
Sophie Nélisse, está fantástica. Deu vida à personagem e seu olhar marcante é a
mais rica expressão de alguém que não está aqui de passagem. Uma menina que se
vê adotada por um casal, cuja nova mãe não lhe dispensa amor e atenção, apenas
palavras ofensivas e agressões físicas. Em seu caminho, encontra pessoas que
lhe dão olhos de olhar o mundo com crítica. Hans, seu pai adotivo, em sua
simplicidade a apresenta ao mundo das letras, Max, lhe traz o outro lado da
guerra, no papel de perseguido por ser judeu, portanto, diferente aos preceitos
de Hitler. Rudy lhe traz a confiança de uma verdadeira amizade e Ilse, em sua
dor, dá-lhe a oportunidade de viajar no mundo da literatura. Não há como
descrever, seu olhar ao descobrir a biblioteca na casa do prefeito.
Embora o filme deixe muito a
desejar, com muitos cortes e algumas cenas divergentes do livro, a mensagem
central, para mim, ficou muito clara. Na cena em que os livros são queimados no
meio da rua e ela, mais uma vez se vê roubando um livro, seus olhos relatam a
dor de quem ama o conhecimento. Enquanto tantos vibram e homenageiam seu líder,
seria ela, a única pessoa com discernimento? Aquela, que os colegas de sala
chamavam de idiota, era a única que podia perceber o quanto o conhecimento
incomoda líderes que não querem pessoas críticas e reflexivas? Uma nova versão
do "Tolo da Montanha" dos Beatles? Não há idade, raça, condição
social, obstáculos para a leitura, para quem quer aprender. O mundo da leitura
é um manancial de conhecimento. Ninguém pode argumentar se não tiver
conhecimento, ninguém pode entender o que está acontecendo em seu país se
mantiver uma visão míope. Uma menina que diz sobre seu amigo judeu; Max, que me
deu olhos, deixa-nos uma grande lição. A leitura é primordial e de acesso para
todos, só não lê quem não quer. Ela, definitivamente, não é a massa.