domingo, 23 de fevereiro de 2014

Um novo olhar para Liesel

Liesel é uma adolescente cujos olhos, aos 12 anos, já presenciaram grandes dores. Viu seu irmãozinho morrer nos braços de sua mãe. Viu a tristeza nos olhos de sua mãe, ao enterrar o filho e ao entregá-la para adoção. Passou privações que não podemos mensurar. Mas, essa menina é feita de uma matéria muito forte. Não se entrega e, durante todo o livro, dribla a morte. E é ela, a morte, quem vai contar sua história.
Devorei este livro, assim que lançado por aqui. Fiquei fascinada, viajei no cenário, imaginei os personagens, a sopa que Rosa preparava, o Hans, com olhos de prata, tocando seu acordeão e os cabelos cor de limão de Rudy, o menino que ela amava e odiava. Liesel, para mim, era uma menina um tanto quanto teimosa e devoradora de livros. Tinha uma sede inacreditável do saber. Reli este livro antes de assistir, queria lembrar dos detalhes, afinal, tantos livros li depois, que as minúcias já escapavam de minha memória.
Em minhas duas leituras, não pude perceber o que o coração desta menina falava com seus olhos observadores. Enquanto assistia o filme, eu pensava se eu não teria captado essa mensagem, nas páginas lidas ou se, o olhar de Brian Percival distinguia-se do de Markus Zusak.
A atriz que representa Liesel, Sophie Nélisse, está fantástica. Deu vida à personagem e seu olhar marcante é a mais rica expressão de alguém que não está aqui de passagem. Uma menina que se vê adotada por um casal, cuja nova mãe não lhe dispensa amor e atenção, apenas palavras ofensivas e agressões físicas. Em seu caminho, encontra pessoas que lhe dão olhos de olhar o mundo com crítica. Hans, seu pai adotivo, em sua simplicidade a apresenta ao mundo das letras, Max, lhe traz o outro lado da guerra, no papel de perseguido por ser judeu, portanto, diferente aos preceitos de Hitler. Rudy lhe traz a confiança de uma verdadeira amizade e Ilse, em sua dor, dá-lhe a oportunidade de viajar no mundo da literatura. Não há como descrever, seu olhar ao descobrir a biblioteca na casa do prefeito.
Embora o filme deixe muito a desejar, com muitos cortes e algumas cenas divergentes do livro, a mensagem central, para mim, ficou muito clara. Na cena em que os livros são queimados no meio da rua e ela, mais uma vez se vê roubando um livro, seus olhos relatam a dor de quem ama o conhecimento. Enquanto tantos vibram e homenageiam seu líder, seria ela, a única pessoa com discernimento? Aquela, que os colegas de sala chamavam de idiota, era a única que podia perceber o quanto o conhecimento incomoda líderes que não querem pessoas críticas e reflexivas? Uma nova versão do "Tolo da Montanha" dos Beatles? Não há idade, raça, condição social, obstáculos para a leitura, para quem quer aprender. O mundo da leitura é um manancial de conhecimento. Ninguém pode argumentar se não tiver conhecimento, ninguém pode entender o que está acontecendo em seu país se mantiver uma visão míope. Uma menina que diz sobre seu amigo judeu; Max, que me deu olhos, deixa-nos uma grande lição. A leitura é primordial e de acesso para todos, só não lê quem não quer. Ela, definitivamente, não é a massa.